conjugam-se os silêncios
na distracção da noite
helena maltez

deixo a solidão acordada, vagarosamente sinto-me vestida da tua pele.
no teu olhar a máscara das horas,
a cumplicidade de um mar,
as nossas vozes envelhecidas, numa paixão desgastada
num dia
ficou o deserto,
a loucura…
uma sede roubada,
um não, sem sentido.
já não há palavras sem medos,
ou até um corpo com raízes de afetos…
os espaços estão vazios
na duplicidade insegura
ficou a ilusão do mar, sem navegar em nós!
helena maltez





sequioso queimas a boca
com palavras meias loucas
e suportas o folgo ardente
da mão inundada e listrada
a manhã apaga-se nos passos
do silêncio único da tua presença.
no rosto, a sombra triste e frágil
esboçada na ânsia do sono.
a sede é tua.
quebras o gelo das palavras que cantam
no eco de um tempo sem nomes.
aceitas a imagem desfocada
de um corpo indefeso
e a música grita no teu peito,
enquanto neva no inferno da tua alma
então matas a sede com o sangue
que brota de um coração desgastado
helena maltez
ruas iluminadas
e
casas decoradas, fascinantes
barulhos de crianças, entre risos de
satisfação na algazarra natural
do abrir presentes,
as mesas fartas
e os cantares são melodiosos
é dia de Natal…
na viela, do fim da rua
da cidade iluminada,
o mar agita-se
e o vento feroz tudo desmorona
está frio e vai chover.
abrigado em metades de papelão
está um homem
sozinho,
um pão nas mãos crespadas
e um copo de café fumegante.
alguém passou
e foi o que lhe deixou…
o homem não sabe que é Natal!
helena maltez
entrou na porta de costas
descalço, com os pés vesgos
descia carregando medos,
as escadas suspensas em redes.
com visão lenta petrificava o espaço
e, das vidraças retratavam as sombras
do lado de lá, da porta ao lado.
encontrou o anoitecer sem horas,
velas ardiam pela casa,
como astros em campo nu
a claridade existia dentro do tempo.
passeou a memória,
sem excessos
recordou como se movia o mar
e com os dois pés esquerdos
caminhou sobre cal caída das paredes
sujas de palavras.
de dentro sangrava
o fascínio de saber sonhar.
helena maltez
olho com as mãos o dia
faz-se noite escura.
o tempo é indefinido
nos espaços renovados
sem distâncias a noite infiltra-se
no meio.
os muros tremem
ao ruído das sirenes
são tóxicos os vultos
que caminham sem crescer
tudo é alheio ao sentido da vida
fugiu a sombra
e o ontem adormeceu hoje
helena maltez
no ventre os traços tecem horas somadas
árvores crescem no fulcro
e erguem-se sonhos que descem
como purificados entre silêncios de amor
a vida alenta o coração
é a chegada da Primavera
os gestos permanecem preguiçosos.
delineadas abre-se o baú de palavras
e a melodia é poesia, solfeja das cordas da guitarra.
separa-se o rosto do olhar refulgente,
perturbado fica preso, ao ponto ilusório
chega veemente a pausa sem tempo!
a paixão embarca sem medo…
o dia começa hoje
é Primavera!
helena maltez
sentei-me na rocha
da falésia junto ao mar.
a manhã era de mitos
na grande solidão
não sabia se o mundo me pertencia.
senti-me inacabada
dentro de um dia tão frágil.
a música de fundo
vinha da minha solidão…
a correr passaram as horas de ninguém.
na noite a claridade era intensa,
vi-me dançar
sobre o brilho de um olhar.
movi o sonho, escutei o mar
nas curvas do caminho.
implacável a imagem,
permanecia no meu espaço
tecida de espuma inóspita.
intacta e indistinta
recolhi ao ímpeto do êxtase
helena maltez
a noite transforma-se,
há luar e é janeiro.
só a distância nos separa.
entregamo-nos a esse luar,
toco na minha mão
e, é a tua que sinto em meu corpo.
a madrugada encanta-nos
pela noite dentro,
desenha teu rosto
com um doce e meigo olhar,
embebeda-me a luz
e é o teu respirar que sinto
ofegante, numa entrega de prazer.
o cenário pertence-nos
na pura ilusão do querer
são guarida de anseios.
dançam olhares
em ritmo cadenciado
numa liberdade transfigurada
o sonho flutua
neste nosso luar de janeiro
helena maltez
abril desfolhado a tela já não é sinfonia nem as aves gritam como qualquer papoila num campo distante não há forças para sonhar ...